O poder silencioso e simbólico das margens
- Maria Teresa

- Jan 3
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Hoje já é o segundo dia do ano novo civil de 2026. De forma geral a vida parece calma. No hemisfério norte, contemplo os grânulos da geada derretendo lentamente sob a luz de um sol baixo e acalentador. O fluxo dos carros e caminhões ainda é reduzido na avenida, as crianças seguem em recesso escolar. A lua quase cheia faz o convite à reflexão do que escolho potencializar nos próximos 15 dias, e faz coro às ‘resoluções de ano novo’ que fiz.
À revelia de 2025 — quando minhas expectativas (mentais) estiveram altas sobre como ocupar meu tempo da forma mais produtiva e saudável — 2026 começa diferente. Enquanto escrevo, penso que desejei que nesse ano eu continue me expressando de forma amorosa e praticando cuidado radical. E isso diz muito sobre como, de uma forma muito didática (e aparentemente contraditória), minha trajetória profissional me ensina e advoga por um viver menos produtivo, mais terno e relacional.
Tenho me deparado frequentemente com a obra de Antônio Bispo dos Santos, e me inspirado em seu fazer contra-colonial. Seu legado me ajuda a refletir — sob uma nova ótica — acerca do poder de nomear. Contrariando a norma, Nego Bispo praticou com excelência o ato místico (não sobrenatural) de nos reconectar com a alma do mundo através da palavra. Como encantamentos, o ato de (re)criar nomes e significados para rótulos desqualificadores criados pelos sistemas dominantes é uma retomada de poder pessoal, coletivo e ambiental.
E nesse momento em que intenciono e dirijo minha energia para um agir mais recíproco nessa Terra tão generosa e compartilhada com uma infinitude de seres, agradeço pelas confluências que me oportunizaram tanto aprendizado no último ano. Entre as tantas viagens que fiz (e as que fizeram até mim) em 2025, realizei sonhos antigos e compartilhei a mesa com gente por demais amorosa, família que sempre vai ser parte da minha história!
Em outras datas, eu me sentei em comunidade n’O Lugar com gente do Brasil todo pra meditar e nutrir compaixão; compaixão essa que me oportunizou ter uma visão mais madura sobre como e quando nosso agir é benéfico ou nem tanto, a depender de nossas intenções. Com essa comunidade fui até o Acre, e lá desmistifiquei uma vez mais a falácia das fronteiras bem como mitos de heróis nacionais que se põem a serviço do terrorismo legalizado contra toda forma de vida que não sirva ao capital.
Nas geografias feministas, dialoguei com pares, apresentei trabalhos, escrevi e publiquei artigos, revisei manuscritos, co-criei e entrevistei colegas e referências na área. Todos esses encontros não só me oportunizaram ampliar minha perspectiva e vivência sobre realidades plurais, mas também me ajudaram a ressignificar o sentido de marginal.

Na geografia física, a margem do rio é o local de encontro da água com a terra. Nesse interstício, não há separação definida já que a fronteira entre os elementos é fluida e mutante. Na geografia humana, a margem é a região forçosamente apartada do centro, ato geralmente justificado por visões criminais que visam à subjugação desses ambientes e de seus habitantes e habitats.
Todavia, nessa mesma geografia humana, temos a possibilidade ver além da narrativa dominante. Visto que a água doce é razão da vida humana na Terra, em tantas comunidades as margens dos rios são espaços marcados por práticas rituais, encontros sagrados e momentos de contemplação. De forma figurada, é também nas margens do sistema que a diversidade se manifesta com seu potencial colaborativo, inventivo, comunitário.
E é nesse tom que inicio 2026: dando um viva às margens, aos ecótonos, ao movimento, às transições e à impermanência! Que todas as tensões emergentes dos encontros entre diferentes perspectivas, aspirações e culturas sejam transformadas em energia construtiva. E quando as lições parecerem difíceis, que ao olhar para a Terra nos lembremos que a diversidade propicia a vida; enquanto a uniformidade é uma comissária da morte.
*Entre minhas motivações para escrever, está a troca com quem lê. Então eu gostaria de dialogar. Você poderia responder a duas perguntas rápidas, por favor?