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Enquanto houver sol: sobre sonhos, emergências e recomeços

  • Writer: Maria Teresa
    Maria Teresa
  • Feb 23, 2023
  • 4 min read

Updated: Dec 25, 2025

Quando eu cheguei aqui era só mato... Eis que me deu uma vontade de começar um canteiro... Quem sabe um dia não vira uma agrofloresta?!

Há 12 anos eu começava uma trajetória um tanto incerta, buscando intersecções entre cultura e relações internacionais. Ao iniciar o mestrado acreditava que poderia propor algo revolucionário que auxiliaria as pessoas a se entenderem e a cooperarem a partir de suas semelhanças étnicas. Logo de cara escutei da pessoa que viria a ser minha orientadora, na entrevista de admissão, com uma cópia de meu projeto em mãos: "Maria Teresa, tu queres estudar Deus e seu tempo!". [Há quem diga que eu sou uma pessoa ambiciosa]

Naquele momento me senti um pouco ofendida, desnorteada... Banquei minha ideia e fui admitida. Porém, não tinha noção do que me esperava. Adentrava em mais um desafio autoimposto, tendo ao lado uma professora muito competente e bastante exigente. Com o apoio dela desconstruí certezas internas e falácias discursivas internacionais.

E enquanto eu me capacitava como pesquisadora e aguçava meu pensamento crítico, também senti a necessidade de trazer a público reflexões, ideias e sentimentos sobre o que me era caro naquele espaço-tempo.

Foi então que comecei a publicar alguns de meus escritos no saudoso Eder Lorategia: aquele lugar mágico, tão meu, que nomeei de "belo jardim" (tradução literal do nome original em basco). Convidei então algumas pessoas a compartilharem daquela atmosfera de beleza, poesia, saudades, consciência socioambiental e outras inquietudes que me acompanhavam.

A semente, sem que eu me desse conta, estava ali. A mesma Maria Teresa que cuidava das violetas da avó quando criança, das samambaias em casa, e que fazia mudas e mudas de pitangueira no apartamento, cultivava também seu jardim interior. [O que está fora algumas vezes reflete o que está dentro]

Essa conexão íntima, micro, para alguns irrelevante, ligava-se diretamente com a curiosidade acadêmica (e de alma) que me levou a conhecer suma qamaña, o "bem viver" andino dos povos indígenas que vivem na atual Bolívia.

O tempo passou, a década dos 20 anos me atropelou. De Eder Lorategia guardo as reflexões que fiz e as trocas de afeto com quem - mesmo à distância - foi me visitar.

Agora, aos 33, me vejo em um lugar interessante. A espiral deu uma volta! Pareço já ter passado por aqui, mas vejo o mundo sob um ângulo diferente. Aquele jardim de flores abriu espaço para alguns canteiros (ter comida no prato é vital!). As reflexões que vinham da práxis, mas ainda bastante fixadas na busca de um belo quase ideal, agora partem de um lugar de mais maturidade, de quem experienciou e testemunhou situações um tanto transformadoras. [Um doutorado no caminho pode ter catalisado o processo]

Enfim, o que era para ser uma introdução pragmática - uma postagem piloto - converteu-se naquilo que eu faço bem: uma prosa. A mensagem aqui é sobre o caminhar... Eder Lorategia (que ainda existe em mim e não nega as raízes ibéricas) hoje convive e abre espaço para Teko Porã, que Cristine Takuá (2022) bem traduziu como "o sistema milenar educativo de equilíbrio".

Teko Porã, a cosmovisão guarani que dialoga como suma qamaña/sumak kawsay, é o belo caminhar. Um modo de vida atento, integrado, humilde e respeitoso frente à natureza - que também somos nós.

Eu, autodefinida como mulher latina, - reconhecendo os privilégios sociais que acesso por ser lida como branca no Brasil - sigo nesse caminhar de constante aprendizado, fazendo uso desse espaço para continuar compartilhando minhas prosas e variações que agora vêm desde um lugar de emergência!

Clara Nunes tão bem interpretou em "Canto das três raças" (de Mauro Duarte e Paulo Pinheiro) as cicatrizes profundas do povo brasileiro nascido de um processo colonizatório e escravocrata, baseado no mercantilismo e no proselitismo. Esse modelo depredatório, genocida e aculturador que se reproduziu por boa parte do globo nos trouxe ao Antropoceno. [Um minuto de silêncio]


(...)


A natureza é sábia, sistêmica e autorregulatória. A humanidade, todavia, tem lá suas limitações. Enquanto dados científicos nos mostram a catástrofe ambiental para a qual nos dirigimos (spoiler: com risco de extinção da nossa espécie), algumas pessoas preferem se manter adeptas aos ditames do sistema patriarcal-capitalista.

É a partir desse contexto que faço desse espaço um lugar de resistência e (re)visão. Aqui vou refletir, dialogar e compartilhar outras possibilidades e formas de olhar o mundo que considero viáveis para se viver bem. E essa construção se fundamenta em perspectivas críticas, diversas, inclusivas e decoloniais.


Eu escolho sonhar ao lado de tantes que já lançam suas sementes de um mundo novo. Quem sabe um dia - o mundo todo - não vira uma agrofloresta?! Parece ambicioso, e é. Mas como diz a canção, "é caminhando que se faz o caminho" ("Enquanto houver sol", de Sergio Affonso).


*Entre minhas motivações para escrever, está a troca com quem lê. Então eu gostaria de dialogar. Você poderia responder a duas perguntas rápidas, por favor?

 
 
 

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